Napoleão perturbou o mercado

Conta como o Corso influenciou os preços do ouro

O calor da manhã nega-se a chegar na úmida Londres. O movimento nas ruas é agitado por pessoas que se socorrem do frio. Sentado num degrau da escadaria do Banco da Inglaterra, o veterano de Austerlitz esfrega o braço ferido para diminuir a estranha sensação, nem tanto de dor, que o estilhaço da bomba francesa ainda lhe causa.

De repente, o galope do cavalo chama a atenção: é mais um dos correios de Sua Majestade que passa em direção ao palácio. Que notícias ele levará ao rei?

Não são boas novas: Bonaparte desembarcou em Marselha, viaja a caminho de Paris, para retomar as rédeas do governo e voltar a brigar com os ingleses. O veterano de Austerlitz assiste, pouco depois, ao aumento do movimento nas escadarias do Banco. Não sabe o que acontece, mas entenderá seus reflexos na vida da cidade.

Um desses reflexos é a cotação do ouro: há quase um século, a £ 4-4-11, o ouro sobe como um rojão nos dias seguintes, até atingir £ 5-7-0, nos 100 dias que representam a retomada do poder por Napoleão.

Depois, batido nas encostas de Waterloo, o Pequeno Corso é segregado numa remota ilha rochosa, para nunca mais voltar a incomodar o mundo.

O veterano de Austerlitz, seus filhos e os filhos dos seus filhos voltarão a ter o ouro cotado a £ 4-4-11, porque é assim que as coisas foram, são e continuarão a ser.

Que estranhos fatos levam este metal amarelo a servir de termômetro da economia e da política, a variar de valor, e a chamar a atenção de toda a comunidade humana, nos últimos 60 séculos, desde que o mundo é mundo?

Atualizado em 24/04/2020