Nos séculos XX e XXI, o investimento em ouro
Conta como o ouro chegou aos investidores de hoje em dia
- O padrão-ouro já não existia mais quando ocorreu a turbulência financeira do século XX, cristalizada no crack da Bolsa de Valores de Nova York em outubro de 1929. Em janeiro de 1934, o presidente Franklin Delano Roosevelt desvalorizava o dólar em relação ao ouro, para US$ 35 cada onça troy, ao mesmo tempo que proibia sua posse por particulares, que deviam comparecer aos guichês de banco para trocar seu ouro por dólares, a este preço;
- Os cofres americanos se encheram de ouro. Os estoques oficiais mais do que duplicaram, de 290 MM de onças troy para 700 MM onças troy em 1949.
- Com a II Guerra Mundial, países europeus e asiáticos refugiaram seu ouro nos cofres dos Estados Unidos e Canadá. A guerra empobreceu a Inglaterra, desestabilizou a libra esterlina, desorganizou as finanças internacionais e conduziu os países industrializados ao acordo de Bretton Woods, onde o ouro foi atacado e defendido com igual veemência. A solução foi nomear o dólar como moeda central do sistema de trocas, ligando o ouro ao sistema monetário internacional. Os Estados Unidos comprometiam-se a uma conversibilidade a US$ 35 por onça troy, e criava-se uma paridade entre as moedas fortes. Vinculado ao dólar, o ouro mantinha sua soberania nos mecanismos de liquidez mundial;
- Após a guerra, os Estados Unidos inundaram o mundo de dólares, criando uma convivência monetária difícil, já que muitos países irrigados com esses dólares os apresentavam ao Tesouro americano, demandando ouro em troca. Essa livre conversibilidade era uma hemorragia para os estoques de ouro do país, que logo deram sinais de exaustão;
- Com preço fixado a atividade mineradora era desestimulante, e logo o governo americano acusava o golpe: mais de US$ 35 bilhões circulavam em outros países, havia menos de US$ 10 bilhões em ouro depositados nos bunkers de ouro de Fort Knox e Nassau Street, mantendo o país numa situação de dependência que exasperava os mais ilustres economistas;
- Aos poucos os americanos mostraram-se incapazes de manter a conversibilidade. Praticavam-se preços diferentes da cotação oficial, e os mercados livres operavam abertamente a US$ 40 por onça troy. Bancos centrais faziam ponte, comprando dos americanos no valor oficial e revendendo nos mercados livres;
- Em 1961, 8 bancos centrais amenizaram a situação, ao formar um pool ou sindicato, para bancar o preço de US$ 35. Este pool durou sete anos, era vendedor líquido de ouro, sem que a situação se resolvesse. A drenagem de ouro levou os países a substituir, em 1967, o dólar pelos Direitos Especiais de Saque (SDR – Special Drawing Rights) nas relações internacionais coordenadas pelo FMI – Fundo Monetário Internacional;
- Nos cinco anos seguintes, o ouro valorizou duas vezes: em dezembro de 1971 passou a valer US$ 38, e em fevereiro de 1973, foi cotado oficialmente a US$ 42,22. Os mercados oficial e livre não se comunicavam, e funcionava um sistema paralelo;
- A situação tornou-se insustentável em novembro de 1973. A venda-pânico de dólares cresceu desmesuradamente; os bancos centrais se enchiam de dólares que valiam cada vez menos. Para assegurar o valor externo de suas moedas os países perdiam o controle sobre seus preços internos, com pressões inflacionárias importadas e desligadas do desempenho econômico local;
- Pressionado por todos os lados – especialmente pelo governo francês de Charles de Gaulle – o presidente Richard Nixon declinou da responsabilidade de converter dólar em ouro, e admitiu que as cotações passassem a flutuar. Era o fim do ouro monetário;
- A magia e o fascínio do ouro são tão grandes que ainda se tentaram acordos internacionais a preços diferentes. Mas nada funcionou. A paridade fixa entre as moedas desapareceu, apesar das reações do FMI, que afinal rendeu-se à evidência dos fatos em 1976, na reunião de Kingston, na Jamaica;
- Daí nasce o interesse de empresas e indivíduos em armazenar ouro, e as reações econômicas que mudaram o comportamento dos negócios. O choque nos preços do petróleo, a formação da OPEP, são apenas as reações mais evidentes e perturbadoras.
- A desmonetização do ouro não durou muito tempo: o Sistema Financeiro Europeu remonetizou o ouro parcialmente em 1979;
- Nenhuma alternativa para o ouro encontrou acolhida universal. Os SDR do FMI, ligados ao dólar e ao ouro, foram substituídos por uma cesta de moedas, com 16 moedas a princípio, e atualmente com quatro moedas apenas. Parece que cada iniciativa de substituir o ouro nas finanças internacionais mais fortalece o seu papel, em face da estabilidade de poder de compra e venda que ele mantém, através dos séculos;
- É por esta razão que as reservas internacionais dos países membros do FMI acusam estoques de mais de um bilhão de onças-troy, o que representa aproximadamente dois terços do valor total dessas reservas.
Atualizado em 24/04/2020